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Archive for the ‘Reportagem’ Category

Um explorador analisa restos de madeira dentro do que alguns acreditam ser restos da Arca de Noé.

Um grupo de exploradores evangélicos chineses e turcos afirmam ter encontrado restos de madeira do que teria sido a Arca de Noé, no leste do Monte Ararat na Turquia.
De acordo com datações do carbono 14 os restos encontrados são de 4800 anos de idade, tempo no qual evangélicos e literalistas afirmam ter sido o momento em que a arca repousou no Monte Ararat.
Yeung Wing-Cheung,  do Grupo de pesquisa internacional da Arca de Noé afirma “Não é 100% de certeza que seja, mas é 99,9% de que é a arca”.
Houve várias descobertas relatadas dos restos da Arca de Noé ao longo dos anos, mais notavelmente um achado pelo arqueólogo Ron Wyatt, em 1987. Na época, o governo turco declarou oficialmente um parque nacional em torno de seu achado,onde um  objeto em forma de barco estendeu através das montanhas do Ararat.
O ministério evangélico continua acreditando que o achado é veridico e para isso chamou o holandês Gerrit Aalten para verificar a legitimidade da Arca. Aalten já acredita ser uma descoberta arqueológica legítima “Pois, é a primeira vez que a descoberta é bem documentada”.
Representantes do Ministério afirmam que a estrutura possui vários compartimentos, conferindo com a história bíblica de onde teriam sido colocado os animais.
Será pedido para a UNESCO oficializar a região como Patrimônio da Humanidade para que as pesquisas arqueológicas sejam feitas adequadamente.

FONTE (tradução e adaptação  livres)

ATUALIZAÇÃO: Estudiosos suspeitam que a “Arca de Noé seja uma farsa”

 Vários especialistas se manifestaram a respeito da descoberta com uma série de argumentações.
Dr. Randal Price diretor de estudos judaicos da Universidade de Liberdade, acredita ser uma farsa pois os curdos têm se aproveitado muito da questão na região. Dr. John Morris, arqueólogo, acredita que os chineses foram enganados.
O Professor Porcher Taylor da Universidade  de Richmond acredita que é um erro, pois para ele os arqueólogos estão escavando no local errado, pois a uma certa distância está o que os EUA consideram a “anomalia do Ararat”, algo que tem intrigado a inteligência norte-americana. Para ele se os restos da Arca estão no Ararat, o local seria o da anomalia.

Mas uma questão intrigante é: o relato bíblico a respeito do dilúvio é uma verdade ou uma farsa?

Dr. Paulo Zimansky, professor de arqueologia e história antiga na Universidade Estadual de Nova York em Stony Brook, diz: “Eu acho que tem todas as características de uma história, mas em qualquer caso, não é algo que possamos investigar como um arqueólogo . ”

Uma inundação catastrófica na Terra é falado em muitas culturas antigas: na Suméria, da Babilónia, grega, hindu, Gália, lendas escandinavas e chinesas. Alguns até são anteriores ao Antigo Testamento.

O curioso, Zimansky diz, é que embora existam relatos escritos do dilúvio em todas estas culturas, os arqueólogos ainda não encontraram evidência disso.

Se você tomar a Bíblia literalmente, Zimansky diz, “esta arca vai ser depositado em um contexto arqueológico que seria uma enchente estrato. E não vai ser um pouco de inundação estrato. Vai cobrir a Terra inteira. Bem, não como inundação estrato existe. ”

E é aí que Morris discorda arqueólogos como Zimansky.

“Tudo depende de seu pressuposto”, diz Morris. “Eu acho que eles estão olhando para ele através dos óculos errados.”

Morris diz que um grande dilúvio teria moldar a paisagem de todo o planeta – esculpindo fendas como o Grand Canyon , mesmo separando as imensas massas de terra como os continentes africano e sul-americano.

“Tudo na terra dá evidências do dilúvio”, diz Morris.

É por isso que ele está convencido de que algo está lá em cima no Monte. Ararat. Ele diz que houve relatos de centenas de testemunhas oculares dizendo que viu o que parecia ser um grande navio. Algumas dessas pessoas, diz ele, são pilotos que sobrevoaram a área durante a Segunda Guerra Mundial . Quantidades consideráveis de dados militares e de penetração no solo de imagem têm relatado uma forma de algo feito pelo homem na montanha.

Muitos especialistas têm concluído ao examinar as fotos que as imagens são de formações rochosas que se assemelham fortemente ao barco descrito no Gênesis.

Seja o que for, elas convencem Morris, e inúmeros outros, a voltar para o Monte Ararat, na esperança de encontrar o que sua fé lhes diz que pode ser encontrado.

FONTE (tradução e adaptação livres)

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Crânio de um jovem australopithecus sediba

Um pequeno um australopithecus sulafricano, parente remoto do ser humano, gostava de comer madeira e cortiça das árvores, enquanto a maioria dos hominídeos preferiam folhas e plantas mais macias, mostra um novo estudo.

Os autores chegaram à conclusão após examinar os dentes do australopithecus sediba, do qual foram encontradas dois exemplares em 2008, em uma caverna perto de Johannesburgo.

O primata “tinha uma dieta muito diferente dos outros hominídeos estudados até o momento. Como sua morfologia é muito parecida, acreditávamos que ele se seria mais ou menos parecido às outras espécies de tipo australopithecus, ou inclusive um pouco aos primeiros homens”, disse Amanda Henry, do Instituto de Antropologia Max Planck. “Na realidade, ele consumia muito mais comida da região, incluindo alimentos duros”.

O pré-molar esquerdo anterior de um Australopithecus sediba

Para chegar ao resultado, os autores bombardearam dentes do australopithecus sulafricano con laser para extrair carbono do esmalte. Os dentes dos outros 81 hominídeos analisados antes continham um tipo de carbono característico das folhas e ervas, mas o do australopithecus sediba originava-se de árvores e matas.

O achado sugere que este primeiro primata comia, pelo menos durante um período do ano, cortiça e outros materiais lenhosos.

“A cortiça, especialmente a que fica no interior das árvores, pode ser muito nutritiva. Todos os nutrientes da árvore passam por sua cortiça interna”, diz a pesquisadora.

Para checar o resultado, os cientistas usaram uma técnica inédita: extrair dos dentes um pouco da placa formada pelo acúmulo de minerais e analisar  minúsculos fragmentos vegetais fossilizados que haviam ficado presos nela há dois milhões de anos. O resultado comprovou que realmente se tratava de cortiça e madeira. Até então, nunca se havia estabelecido que os hominídeos africanos houvessem seguido essa dieta.

Para Paul Sandberg, da Universidade de Colorado Boulder, que participou do estudo publicado pela Nature, a alimentação do australopithecus sediba é bem parecida à dos chimpanzés da savana africana de hoje em dia.

Segundo Sandberg, “é uma descoberta importante porque a dieta é um dos aspectos fundamentais do animal, é o que dita seu comportamento e seu nicho ecológico”.

“Parece que há alguns milhões de anos havia diferentes espécies de hominídeos que utilizavam o ambiente de diversas formas, já que cada um se focava em um tipo específico”, diz a cientista.

“Mais tarde, surgiu o homo erectus, uma espécie capaz de locomover-se e desolcar-se em vários ambientes diferentes, o que foi uma grande mudança”, conclui ele.

Fonte 

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Esta foto, abaixo, que circulou e ainda circula o mundo, completa hoje 40 anos e é um marco do terror, não só da Guerra do Vietnã, mas da guerra em si.

Encontrei essa publicação no site do Jornal Estadão, e achei interessante postar.

Garota de Napalm: Kim Puch, aos 9 anos.

A famosa fotografia da “menina do napalm” completa 40 anos nesta sexta-feira como um dos grandes símbolos dos estragos da guerra, um aniversário que seus protagonistas celebraram exaltando a capacidade da imagem para mudar o curso da História.

Kim Phuc tinha somente nove anos quando um avião do exército sul-vietnamita bombardeou o pequeno povoado de Trang Bang, próximo de Ho Chi Minh (então Saigon), em um ataque coordenado com o comando americano que tratava de controlar a estrada entre Camboja e Vietnã.

Os relatórios dos EUA indicavam que não havia civis na cidade, como explicaram posteriormente os militares à frente da operação, os mesmos que deram sinal verde para o lançamento de mísseis carregados de napalm, um combustível capaz de carbonizar qualquer forma de vida, que transformou o lugar em um inferno em chamas.

“Até então eu era uma menina feliz”, assegurou Phuc, que aterrorizada com toda a situação tinha se refugiado com sua família no templo de Cao Dai.

O fogo dessas bombas, que alcança 1,2 mil graus, queimou suas roupas e causou queimaduras em 65% de seu corpo, especialmente nas costas e no braço esquerdo, cuja pele era derretida pelo calor.

Phuc saiu correndo sem roupas pela estrada (“muito quente, muito quente!”, gritava) com o rosto em lágrimas, assim como seus outros parentes. Neste mesmo momento, essa imagem acabou sendo imortalizada pelo fotógrafo vietnamita Nick Ut, que cobria a Guerra do Vietnã para a agência americana “Associated Press”.

A foto, tirada no dia 8 de junho de 1972, foi divulgada em todo mundo e revelou todos os horrores do conflito à sociedade internacional, sendo decisiva para acelerar o fim dos confrontos.

“A Guerra do Vietnã terminou graças a essa fotografia”, assegurou à Agência Efe o fotógrafo, que esta semana se reencontrou com Phuc em uma conferência organizada pela igreja batista Liberty de Newport Beach, no sul da Califórnia.

Aquela imagem foi uma das muitas que Ut tirou naquele conflito, embora essa foi a que tenha marcou sua carreira e ainda lhe rendeu o prêmio Pulitzer.

“Para mim parece que foi ontem. É muito triste. Olho novamente as fotografias e observo o quanto foi terrível aquela guerra, todas as guerras, não só a do Vietnã”, comentou o fotógrafo que ainda segue na atividade aos 61 anos de idade.

Ut voltou a tirar a poeira das fotos obtidas na guerra por conta do 40º aniversário daquele 8 de junho, imagens que não captam o que ocorreu depois, mas que fotógrafo faz questão de narrar.

“Fui ajudá-la num instante (Phuc) porque sua pele estava se desprendendo do braço e das costas. Não queria que ela morresse. Deixei a câmara e comecei jogar água nela. Depois, eu a coloquei no meu carro e fomos para o hospital, mas sabia que ela poderia morrer a qualquer momento”, relatou Ut.

Kim Phuc chegou em estado crítico ao centro médico e o pessoal, sem muitos recursos, enviou a jovem diretamente para o necrotério, onde passou três dias.

“Mas eu não morria”, contou Phuc, que graças a um amigo de seu pai acabou sendo realocada em umas instalações para queimados. Neste local, a jovem ficou internada durante 14 meses.

“É um milagre o fato de eu ter conseguido sobreviver”, confessou a mulher que emocionou os californianos com sua história. No encontro, Phuc também mostrou as cicatrizes em seu braço queimado, que, mesmo depois de 17 cirurgias plásticas, ainda seguem visíveis.

De acordo com Phuc, as sequelas psicológicas duraram muito mais tempo. Mas, depois de 1982, ela encontrou a paz que estava buscando através da fé cristã.

“Estou muito contente. Penso que a fotografia é um presente muito poderoso para mim e acho que o mundo é melhor graças a ela. Isso porque, a imagem fez com que o povo adquirisse mais consciência do que é uma guerra”, manifestou.

Após a Guerra do Vietnã, Kim Phuc foi convidada pelo Governo comunista do país para diversas campanhas. Após criar uma boa relação com as autoridades, a jovem conseguiu uma permissão para estudar em Cuba, onde aprendeu um pouco de espanhol e conheceu seu marido.

Em 1992, quando voltava de uma viagem de Moscou para Havana, Phuc aproveitou uma escala de seu avião no Canadá para pedir asilo político.

Há 15 anos é embaixadora de Boa Vontade da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Imagem

Fotógrafo Nick Ut e Kim Phuc se reencontram em cerimônia nos EUA

Fonte: Estadão

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Especialistas que analisaram uma inscrição de 2.600 anos dizem que ela é uma espécie de placa comemorativa da inauguração da Torre de Babel, com detalhes do projeto celebrizado pela Bíblia.

A conclusão está num novo livro de título indigesto, “Cuneiform Royal Inscriptions and Related Texts in the Schoyen Collection” (“Inscrições Reais em Cuneiforme e Textos Relacionados da Coleção Schoyen”).

Martin Schoyen é um empresário norueguês, dono de uma coleção de antiguidades que inclui, entre outras coisas, inscrições em cuneiforme (difícil sistema de escrita do antigo Oriente Médio) feitas a mando dos reis da Mesopotâmia, no atual Iraque.

Entre essas inscrições está a estela –essencialmente um poste de pedra– erigida quando Nabucodonosor 2º governava a Babilônia, entre 605 a.C. e 562 a.C. Coberta com textos e desenhos, a estela relata a construção de uma obra que, se fosse egípcia, teria porte faraônico.

Divulgação
A forma original da estela, uma espécie de pedra comemorativa com inscrições, do reinado de Nabucodonosor
A forma original da estela, uma espécie de pedra comemorativa com inscrições, do reinado de Nabucodonosor

TERRA E CÉU

Seu nome era Etemenanki. Em sumério, idioma que já era arcaico nos tempos de Nabucodonosor 2º, a palavra significa “templo das fundações da terra e do céu”. E o rei da Babilônia carrega nas tintas propagandísticas ao descrever como construiu a estrutura, cuja altura, segundo relatos posteriores, chegava a mais de 90 m.

“[Para construí-la] mobilizei todos em todo lugar, cada um dos governantes que alcançaram a grandeza entre todos os povos do mundo. Preenchi a base para fazer um terraço elevado. As estruturas construí com betume e tijolo. Completei-a erguendo seu topo até o céu, fazendo-a brilhar como o Sol”, diz a inscrição na pedra.

O templo era dedicado ao deus Marduk, patrono da dinastia de Nabucodonosor.

ZIGURATE

A estrutura, que lembra um pouco uma pirâmide com degraus, encaixa-se na categoria dos zigurates, comum na arquitetura dos templos da antiga Mesopotâmia.

A equipe liderada por Andrew George, especialista em babilônio do University College de Londres, publicou pela primeira vez a descrição detalhada da estela no livro.

Para eles, a probabilidade de que o zigurate gigante tenha sido a inspiração para o relato bíblico da Torre de Babel é considerável. Para começar, já se sabia que “Babel” (“A Porta do Deus”) é apenas o nome dado pelos antigos hebreus à Babilônia.

Em segundo lugar, foi Nabucodonosor 2º o responsável por destruir o último reino israelita independente, o de Judá, arrasando o templo de Jerusalém e deportando milhares de pessoas da terra de Israel para a Babilônia no ano 586 a.C.

Os deportados israelitas, portanto, teriam tido a chance de ver de perto a maior das obras de seu opressor, justamente no período em que, segundo a maior parte dos estudiosos atuais, o texto da Bíblia estava sendo editado e consolidado no exílio.

A inspiração para a história do rei que tentou construir uma torre até o céu, portanto, teria vindo nessa época.

Se a hipótese de George e seus colegas estiver correta, a imagem na estela é a mais antiga representação da Torre de Babel, que acabaria inspirando inúmeros artistas da Idade Média até hoje. Uma identificação definitiva, contudo, é difícil de provar sem evidências mais diretas.


MATÉRIA RETIRADA DO CADERNO CIÊNCIA DA FOLHA DE SÃO PAULO, POR REINALDO JOSÉ LOPES – EDITOR DE “CIÊNCIA E SAÚDE”

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Antigo palacete no centro da cidade reunirá milhares de vestígios encontrados em todo o estado fluminense 

O palacete no centro do Rio de Janeiro que abrigaria a Casa do Samba será transformado em um centro de arqueologia. O espaço reunirá milhares de vestígios encontrados em escavações em todo o estado fluminense, e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pretende inaugurá-lo no ano que vem.

Por enquanto o acervo arqueológico está guardado na sede do Iphan, no Rio, mas o plano é transportar as 15 mil peças para o palacete, na praça da República, 22, assim que for concluída a reforma. No momento não há mais espaço disponível para guardar coleções arqueológicas em instituições de pesquisa.

O local contará com laboratórios, espaço para exposições e debates, além de funcionar como um centro de educação patrimonial. Segundo o superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, Carlos Fernando Andrade, o gasto previsto é de R$ 9 milhões, entre a realização da obra e a montagem do centro.

O estado do Rio de Janeiro tem 962 sítios arqueológicos registrados e 140 projetos em andamento. O mais antigo é o Sambaqui de Camboinhas, com mais de 7 mil anos, na paria de Itaipu, em Niterói. Nas obras do Complexo Petroquímico do Rio, em Itaboraí, foram localizados 41 sítios.

Fonte: História Viva

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Em busca de uma tradição inventada
A partir de 1870, a maçonaria elege Tiradentes como seu símbolo maior e reivindica a organização do levante dos inconfidentes

por Françoise Jean de Oliveira Souza

 A história é continuamente reescrita. À medida que a realidade presente muda, as interpretações acerca de um fato passado também são alteradas, buscando respostas que correspondam melhor às necessidades do tempo atual. Foi assim com a Inconfidência Mineira (1789). Poucos momentos foram tão debatidos, reescritos e apropriados quanto esse.

Durante boa parte do século XIX, a Inconfidência não assumiu lugar de destaque na historiografia brasileira. Tal situação modificou-se apenas na segunda metade do século, quando o princípio da nacionalidade tornou-se uma questão premente a ser resolvida. Urgia ao Brasil a construção de laços de pertencimento capazes de criar um sentimento nacionalista, e era fundamental encontrar os elementos fundadores da nação, construindo uma identidade que pudesse particularizá-la. Com o golpe militar que inaugurou a República em 1889, essas necessidades foram reforçadas. O regime instaurado de cima para baixo estava longe de apresentar-se como uma demanda da população em geral. Assim, era preciso legitimá-lo perante o povo, apresentando- o não como um elemento estranho à sociedade, mas sim como um desejo histórico presente havia muito tempo.

A solução para essas questões passava pela criação de um mito fundador que estabelecesse uma idéia de continuidade entre o fato presente e o passado brasileiro. Era necessário criar uma tradição republicana para a nação por meio de heróis que já tivessem ansiado pela implantação desse regime. Nessa ocasião, a Inconfidência Mineira e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, assumiram com propriedade o papel de precursores da República.

A escolha de Tiradentes como herói nacional não é difícil de ser explicada. Com a publicação da obra de Joaquim Norberto de Souza e Silva, História da Conjuração Mineira (1873), que ressaltava o fervor religioso do personagem nos últimos momentos de sua vida, inúmeras representações simbólicas tornaram-se possíveis, aproximando-o à figura de Cristo. Outro fator importante para essa opção foi que o movimento não aconteceu efetivamente, o que poupou os inconfidentes do derramamento de sangue e os manteve imaculados. Eles foram apenas vítimas da violência, nunca agentes.

A Inconfidência como objeto passível de ser novamente apropriado permitiu à historiografia refazer as linhas gerais do levante sempre que a conjuntura política brasileira teve necessidade de reavivar o sentimento nacional. Seu legado simbólico foi retomado de tempos em tempos, mais especificamente nos momentos de rupturas históricas no decorrer do século XX. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e até mesmo os militares de 1964, auto-intitulados “os novos inconfidentes”, apropriaram-se do fato histórico em favor de seus interesses políticos. Sob novas roupagens, o mito repetia-se incessantemente.

Contudo, não foram apenas os governos que utilizaram a influência do movimento e de seu herói. Muitas instituições também procuraram um “lugar ao sol” nessa festa de apropriações simbólicas. Foi o caso da maçonaria, que tomou Tiradentes como seu símbolo maior no Brasil ainda no século XIX. A partir de 1870, ocorreu um crescimento acelerado do número de lojas maçônicas no país e muitas delas foram batizadas de “Tiradentes”. Freqüentemente, suas bibliotecas tinham o inconfidente por patrono e até mesmo os jornais maçônicos carregavam seu nome. Já no século XX, Tiradentes pareceu ganhar em definitivo um lugar de destaque no panteão maçônico, tornando-se patrono da Academia Maçônica de Letras.

Mas por que esse mineiro poderia representar a maçonaria? Que legitimidade haveria nisso? “Simples”, responderiam os historiadores ligados a essa organização: Tiradentes teria sido maçom, e a Inconfidência Mineira, uma conspiração maçônica em prol da libertação nacional!

Muitos maçons, historiadores ou não, aventuraram-se a escrever sobre o episódio para desvendar sua “verdadeira” história e demonstrar o papel crucial da maçonaria na definição dos acontecimentos de 1789. Em geral, essas narrativas começam demonstrando que a Inconfidência não foi um episódio regional. Tal movimento teria feito parte de um projeto internacional elaborado para tornar livres todos os povos oprimidos. A Inconfidência, a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos seriam expressões de um mesmo fenômeno: o do anseio revolucionário por independência, democracia e liberdade que sacudiu a Europa e a América por meio das atividades maçônicas.

Desse modo, o sentimento nativista (ver glossário) não seria suficiente para explicar os anseios dos inconfidentes pela República. Acreditar apenas nisso, segundo os escritores da maçonaria, seria “ingenuidade e romantismo”. Os conspiradores mineiros agiriam inspirados não só pela idéia de nação brasileira, mas, principalmente, pelos sentimentos de sua organização. “Mirando-se no exemplo vitorioso da revolução americana guiada por George Washington, Thomas Jefferson, etc., (…) os líderes inconfidentes questionaram o que a metrópole impunha como sendo inquestionável”, escreve o maçom Raymundo Vargas. Eles não teriam planejado uma revolta se não tivessem certeza de que os “irmãos” americanos prestariam auxílio ao restante do continente. O projeto também incluía a Europa, e a França foi o palco escolhido para os contatos que uniriam o Brasil “ao elo dessa corrente universal de liberdade”.

A narrativa maçônica apresenta-se confusa para aqueles que sabem que a instituição foi fundada no Brasil em 1801. A Inconfidência poderia caracterizar-se como um movimento maçônico se ainda não havia lojas no Brasil? De acordo com seus escritores, haveria, sim, centenas de maçons organizados em lojas, mas estas funcionavam clandestinamente, já que a ordem se encontrava proibida pela legislação portuguesa.

O relato que inaugurou a crença em uma Inconfidência de caráter maçônico partiu de Joaquim Felício dos Santos, que, curiosamente, não era maçom. Em sua obra Memórias do distrito diamantino da comarca do Serro Frio (1924), ele escreve que a “Inconfidência de Minas tinha sido dirigida pela maçonaria, Tiradentes e quase todos os conjurados eram pedreiros-livres”. Com base nessa passagem, estudiosos, maçons ou não, começaram a associar automaticamente a Inconfidência à maçonaria. Surgiu a crença de que Tiradentes, que ia muito à Bahia para refazer o sortimento de mercadorias de seu negócio, acabou, numa de suas viagens, tornando-se maçom. Ele seria o responsável pela criação de uma loja maçônica, local onde os conjurados teriam sido iniciados na organização, “introduzida por Tiradentes quando por aqui passava vindo da Bahia para Vila Rica”, escreve Tenório D’Albuquerque.

Prova maior da importância do triângulo como símbolo maçônico teria se dado no momento da execução de Tiradentes, quando o maçom e capitão Luiz Benedito de Castro não distribuiu as tropas em círculo como de costume, e sim formou um triângulo humano em torno do patíbulo. A multidão “não poderia compreender o significado simbólico daquele triângulo, mas Tiradentes, no centro dele, compreendia aquela última e singela homenagem”, descreve Raymundo Vargas.

Finalmente, as narrativas maçônicas encontram explicação também para um instigante mistério: o sumiço da cabeça de Tiradentes. A urna funerária contendo a cabeça do herói da Inconfidência teria sido retirada secretamente às altas horas da noite pelos irmãos maçons remanescentes do movimento. O roubo da cabeça seria, segundo Raymundo Vargas, uma das primeiras afrontas da maçonaria às autoridades repressoras portuguesas, mostrando-lhes que “a luta só começava”. Segundo autores maçons, não teria sido por acaso que, no mesmo local onde a cabeça de Tiradentes fora exposta, o então presidente da província mineira e grão-mestre da maçonaria brasileira em 1874 Joaquim Saldanha Marinho, em 3 de abril de 1867 ergueu uma coluna de pedra em memória do mártir maçom.

Vários outros aspectos da Inconfidência foram trabalhados pelos autores ligados à organização, tais como a personalidade maçônica do Visconde de Barbacena ou as “irrefutáveis” provas da viagem de Tiradentes à Europa para fazer contato com seus irmãos da ordem. Percebe-se que a maçonaria, por meio de seus intelectuais, construiu uma série de argumentos para não deixar dúvida quanto ao papel de destaque dessa instituição no desenrolar de todos os fatos da Conjuração. Recentemente, surgiram alguns trabalhos elaborados por historiadores maçons mais criteriosos que refutam muitas das teses aqui apresentadas. Contudo, estes ainda não foram suficientes para derrubar do imaginário maçônico a figura do herói mineiro.

De fato, existem vestígios de que maçons passaram pelas Minas setecentistas. Analisando os processos inquisitoriais luso-brasileiros de fins do século XVIII e início do XIX, encontram-se denúncias contra mineiros de Vila Rica e do Tijuco, acusados de libertinos, heréticos e maçons. Sabe-se também que muitos estudantes brasileiros em Coimbra e Montpellier iniciaram-se na maçonaria européia e trouxeram seus valores e idéias para o Brasil. Alguns deles, como José Álvares Maciel e Domingos Vidal, ajudaram nos planos dos inconfidentes.

Para além da discussão da veracidade ou não desses relatos acerca da Inconfidência, é interessante perceber de que maneira a elaboração de tal narrativa histórica favorece a instituição dos pedreiros livres. Em diversos momentos, a presença da maçonaria em território brasileiro foi questionada. Com a proclamação da República, por exemplo, a Igreja Católica perdeu o título de religião oficial do Estado e, para tentar reaver sua influência política, reforçou o combate à organização. O catolicismo oficial passou a apresentar a maçonaria como uma sociedade “estranha” à cultura brasileira, vinda de fora, representante do imperialismo e, logo, uma ameaça à soberania nacional. Mais tarde, com esses argumentos, Getúlio Vargas a colocaria na ilegalidade.

Diante de situações como essas, tornou-se fundamental para a maçonaria apresentar-se à sociedade brasileira como uma instituição que, ao contrário do que dizem seus opositores, mostra se presente há tempos em nosso território e em nossa cultura. Assim, a narrativa da Inconfidência como um movimento maçônico pode ser denominada de “‘tradição inventada”, expressão cunhada por Eric Hobsbawm que indica a criação de um passado com o qual se busca estabelecer uma continuidade. Construir por meio de uma historiografia uma tradição na qual os maçons teriam feito parte do momento fundador da nação brasileira é, sem dúvida, uma maneira de assegurar sua presença no Brasil. Ao associar a imagem de Tiradentes à sua, essa ordem passa a ser lembrada como a defensora dos nobres valores carregados pelo herói nacional. Mais do que uma forma de defesa, a apropriação maçônica da simbologia da Inconfidência lhe dá legitimidade perante a sociedade. Por ora, a estratégia teve êxito na medida em que a insurreição de 1789 e a atuação maçônica encontram-se, ainda hoje, intimamente associadas no imaginário popular.

A BANDEIRA MINEIRA

A origem da bandeira de Minas Gerais é mais uma prova, para os maçons, do envolvimento desta organização na Inconfidência. “Se ainda ao mais incrédulo dos incrédulos restasse um resquício de dúvida quanto à origem maçônica da Inconfidência Mineira, bastaria contemplar-lhe a bandeira”, afirma Tenório D’Albuquerque, em A bandeira maçônica dos inconfidentes. Utilizando como disfarce a idéia da Santíssima Trindade, o triângulo representaria, na verdade, a sagrada trindade da maçonaria: liberdade, igualdade e fraternidade. No interrogatório relatado nos autos da devassa, ao ser perguntado sobre o significado da bandeira, Tiradentes teria respondido “sagrada trindade” e não “santíssima”. Tal detalhe supostamente passou despercebido ao escrivão.
 

DISCORDÂNCIA ENTRE OS HISTORIADORES

A historiografia acadêmica encontra-se longe de um consenso acerca da participação ou não da maçonaria na Inconfidência. As hipóteses vão desde o papel central dos maçons na elaboração dos planos do levante até a negação total de sua influência na Conjuração.

Augusto de Lima Júnior ressalta o papel da maçonaria ao percebê-la como um importante elemento de ligação e comunicação dos inconfidentes com os grupos de apoio no Rio de Janeiro e na Europa. Em posição oposta está Lúcio José dos Santos, alegando que o fato de não haver nenhum vestígio da ação propriamente maçônica nos autos da devassa seria a maior prova da ausência dessa sociedade na Inconfidência. Também argumenta que, se a maçonaria possuísse prestígio suficiente a ponto de ser a idealizadora do movimento, ela teria tido forças para impedir a condenação de seus membros. Finalmente, a meio-termo entre as duas opiniões encontra-se Márcio Jardim, para quem a atuação maçônica teria sido importante, mas secundária: seu papel seria apenas o de aglutinar pessoas e idéias. O autor observa, ainda, como a maçonaria dos dias atuais se apropria da figura de Tiradentes, o que revelaria um desejo de mostrar poder acima do comum, causando lhe surpresa o fato de “boatos sobreviverem ao tempo e à evidência das provas contrárias”.

 

 Françoise Jean de Oliveira Souza  é doutoranda em história pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora da dissertação Vozes maçônicas na Província Mineira – 1869-1889, UFMG, 2004

Acesse:  História Viva

 
 
 
 
 

 

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Coleção História Geral da África- Unesco

No último dia 6 de abril, na PUC, ocorreu o lançamento da coleção História Geral da África – Unesco. Em 8 volumes, esta é a coleção mais completa e importante para estudos sobre África.
Já havia sido publicado em outros idiomas, como inglês, árabe , e francês.
Infelizmente, os estudos sobre África, no Brasil, são muito recentes e há pouc material de qualidade a respeito.

O mais interessante desse projeto da Unesco com origem em 1964 é o interesse em mostrar o continente africano a partir do ponto de vista dos africanos. O projeto foi impulsionado no momento das independências africanas e visava desmistificar a idéia de que a África é um continente sem história.

O projeto contou com 350 cientistas, dos quais 2 terços deles eram africanos. Além de mostrar que a África tem história, e ser um material com olhar africano, a coleção pretende quebrar paradigmas de que a África é um local de pobreza e escravidão.

Os oito volumes se dividem em:

1. Metodologia e Pré-História da África
2. África Antiga
3. África do século VII ao XI
4. África do século XII ao XVI
5. África do século XVI ao XVIII
6. África do século XIX a década de 1880
7. África sobre dominação colonial 1880-1935
8. África desde 1935
 
E a grande cereja do bolo é: a coleção completa está disponível para download gratuito no site da unesco!
Para baixar a coleção clique aqui

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