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Archive for fevereiro \10\UTC 2011

Em 28 de setembro de 1970, o Egito entrou em luto. Um ataque cardíaco levava embora seu presidente, o líder que sonhou com um Oriente Médio laico e soberano, e dava início a uma nova era de extremismos na região
por Richard Lebeau

Filho de carteiro, ele se tornou o primeiro egípcio autêntico a comandar o país desde o tempo dos faraós

Em 1º de outubro de 1970, no Cairo, 5 milhões de egípcios driblaram as forças de ordem e se

apossaram do caixão do presidente, prestando-lhe uma última homenagem. A polícia penou para proteger da asfixia os vários chefes de Estado ali presentes. O povo chorava a morte de seu herói, aquele que lhes trouxe de volta sua dignidade.

Primeiro “egípcio autêntico” a tomar as rédeas de seu país desde o tempo dos faraós, Gamal Abdel Nasser, um filho de carteiro nascido em Alexandria em 1918, teve um destino excepcional. Ele passou a juventude em sua cidade natal e fez seus estudos no Cairo, no centro da cidade islâmica. Essa foi uma forma de não romper com as raízes familiares, populares e do interior do Said (a região sul do país, o Alto Egito).

Desde cedo, o futuro rais – nome dado, após a eleição de Nasser, ao cargo de chefe de Estado egípcio – foi marcado pelo nacionalismo. Apesar da independência acordada em 1922, a Grã-Bretanha sempre ocupou o Egito. Em 1935, ao participar de violentas manifestações patrióticas, Nasser foi ferido na cabeça. No ano seguinte, o jovem não ficaria satisfeito com o tratado anglo-egípcio, que limitava a presença britânica, por 20 anos, às margens do canal de Suez. Isso porque o acordo deu às tropas de Sua Majestade o direito de intervir no conjunto do território egípcio, em caso de ameaça internacional. E foi exatamente isso o que fariam durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1937, Nasser integrou a primeira turma da Academia Militar, com a patente de subtenente. Foi a chance de ascensão desse jovem de origem modesta. Enviado ao Sudão, ele conheceu oficiais tão nacionalistas quanto ele, como Zacharia Mohieddine ou Anuar Sadat. Homens que chegariam ao primeiro plano da cena política egípcia. Juntos, eles juraram libertar o Egito.

Nomeado capitão em 1943, Nasser se tornou professor da Academia Militar, depois tenente-coronel. Em 1948, destacou-se pelo patriotismo lutando em Fallujah, na Palestina, contra o exército do então jovem Estado de Israel.

Árabes se rendem ao exército israelense após a derrota na Guerra dos Seis Dias, em 1967. O fracasso militar minou a credibilidade dos regimes laicos da região

A derrota dos árabes foi uma verdadeira humilhação. As inquietações da juventude voltaram a assolar Nasser: patriotismo, imperialismo, independência, ativismo. Constituiu então o Movimento dos Oficiais Livres, que organizou um golpe de Estado e conseguiu destituir o rei Faruk na noite de 22 a 23 de julho de 1952. Em 18 de junho de 1953, nascia a República Árabe do Egito, com o general Mohammed Naguib como presidente do conselho da revolução. Foi a primeira etapa da “Revolução Egípcia”.

O golpe de Estado teve grande apoio popular. Entre os que aplaudiam, estava o grupo dos Irmãos Muçulmanos, confraria pan-islamista fundada em 1928 que pregava o renascimento islâmico. Gamal Abdel Nasser e Anuar Sadat aderiram a sua visão de mundo. Nasser, aliás, foi membro de 1944 a 1948 e chegou até a se alistar no ramo militar dos Irmãos depois de 1946.

Mas nem por isso deixou de combater essa potente associação político-religiosa, último obstáculo da autocracia. Em 1954, depois de se livrar de Naguib, que nesse meio-tempo se tornara presidente da República, Nasser assumiu sozinho as rédeas do poder. No mesmo ano, vítima de uma tentativa de assassinato atribuído aos Irmãos Muçulmanos, ele proibiu a organização e mandou prender vários milhares de membros.

Em 1964, o regime reformou a universidade islâmica Al-Azhar, para que seus clérigos pregassem a ideologia nasseriana. A intenção não era suprimir a religião da cena política, mas fazer dela um instrumento de legitimação da ordem social. “O discurso religioso assim domesticado teve, nos anos 1960, o estatuto de auxiliar em relação às logomaquias então na moda: progressismo, anti-imperialismo, socialismo, neutralismo positivo etc.”, analisa Gilles Kepel, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris. Essa situação durou até junho de 1967, data em que a derrota para Israel na Guerra dos Seis Dias precipitou a crise das sociedades árabes, abrindo o caminho para as contestações islâmicas.

Até então, a política de Nasser era aprovada pelo povo egípcio. No exterior, ela significava terceiro-mundismo e neutralidade aparente em relação aos Estados Unidos e ao bloco soviético. No interior, era sinônimo de nacionalização dos bancos e do canal de Suez, expulsão dos britânicos e reforma agrária. O balanço geral mostra alguns sucessos.

Em 1937, o Egito contava com 240 mil meninos de 15 a 17 anos alfabetizados. Eram 600 mil no final de 1960. Para as meninas o número de escolarizadas passou de 40 mil para 210 mil. O acionamento da barragem de Assuã, graças à União Soviética, permitiu recuar o curso do Nilo, e os trabalhadores agrícolas pararam de sofrer com as cheias do rio. O comandante tornou-se o herói das multidões árabes.

Centenas de milhares de pessoas tomam as ruas do Cairo em setembro de 1970 para chorar a morte de seu querido presidente

Em junho de 1967, a vitória de Israel sobre os egípcios, jordanianos e sírios assinalou o início do fim do nacionalismo árabe. No entanto, o povo não imputou essa derrota e a perda do Sinai a Nasser. Demissionário em 7 de junho, o rais foi chamado de volta pela multidão no Cairo em 9 de junho. “Perder a guerra e também Nasser é insuportável”, escreveu o jornal Al Goumhouerya.

A partir de fevereiro de 1968, o Egito vacilaria novamente. O país foi sacudido por várias manifestações que exigiam o “castigo dos traidores”. Nasser destituiu os militares do governo. Em vão. Ainda em 1968, a saúde do presidente, diabético, começou a se degradar. Seus médicos lhe prescreveram repouso e distância dos negócios. Impossível, as chagas da derrota ainda estavam abertas e a situação no mundo árabe o levava a assumir o papel principal na cena política. O pan-arabismo e sua versão nasseriana caminhavam para o fracasso.

O islamismo, o petróleo e a resistência palestina eram os novos motores do mundo árabe. A derrocada de junho de 1967 abrira uma crise política de grande amplitude. Ela destruiu a legitimidade laica das elites no poder. A morte de Nasser, em 28 de setembro de 1970, marcou o fim das manifestações populares em favor dos regimes nacionalistas.

O escritor Tawfik el-Hakim diria mais tarde: “Havia, na política de Nasser, um grande número de dados que mereciam ser contestados. Mas ele nos mergulhou em uma espécie de encantamento. Todos nós estávamos convencidos de que nosso país tinha se tornado uma imponente potência industrial, que estava na vanguarda dos países em vias de desenvolvimento no que diz respeito à reforma agrária, e que tinha a força militar mais potente do Oriente Médio”. O Egito de Anuar Sadat, seu sucessor na presidência, não tardaria a unir-se ao campo árabe aliado aos Estados Unidos.

Sobre os escombros do nasserismo nasceram duas variantes do nacionalismo árabe. No Iraque, o partido Baas construiu, a partir de 1968, um regime que aliou o ultranacionalismo à crueldade e ao antissemitismo. Na Líbia, emergiu o coronel Muammar Gaddafi, que pretendia ser um concorrente de Nasser e cujo exercício de poder oscilava entre o trágico e a farsa. Em 1970, na Síria, um golpe de Estado instalou uma ditadura militar.

Nasser (ao centro) recebe o secretário-geral da ONU, U Thant, em maio de 1967: no campo das relações internacionais, o egípcio foi um dos fundadores do movimento dos países não alinhados

A “libertação” da Palestina ocupada trouxe às novas gerações o pretexto para contestar uma sociedade árabe bloqueada, despótica. Aos heróis da independência, a juventude do Cairo, de Damasco (Síria), de Amã (Jordânia) e de Bagdá (Iraque) preferia os militantes palestinos, de keffieh na cabeça e Kalashnikov na mão, carregando a bandeira de um marxismo “puro e duro”. Os fedayin, os combatentes, representavam a revolução em curso contra os chefes de Estado árabes e a ordem estabelecida que eles encarnavam. Esse nacionalismo palestino se manifestou na forma de grupos armados que agiam entre os refugiados. Na Jordânia, em setembro de 1970, o rei Hussein afrontou de maneira sangrenta a Organização de Libertação da Palestina de Yasser Arafat, durante o Setembro Negro.

Os estudantes egípcios afirmavam nas ruas, quase cotidianamente, seu apoio aos palestinos e forçaram Sadat a enfrentar Israel. O Ocidente acreditou estar vendo surgir, por trás de Arafat e outros chefes os fantasmas de Marx e Lenin. Mas estavam errados. Em vez da república popular, a revolução geraria, em 1979, no Irã, uma república islâmica.

No Egito, em 15 de maio de 1971, Sadat mandaria prender os barões da esquerda nasseriana. Em seguida, mandou demolir a penitenciária de Tourah, e os Irmãos Muçulmanos saíram da prisão – um dos membros da organização abateria Sadat em 1981.

Em 11 de setembro, o chefe de Estado egípcio ressaltou o caráter muçulmano do regime. Em 1972, 12 mil conselheiros soviéticos foram expulsos. Mas, em 1978, o Egito assinou uma paz separadamente com Israel. O sonho nasseriano da unidade árabe estava morto.

 

 O Saladino dos tempos modernos

 A lenda de Nasser repousa sobre a revolução nacional, a independência em relação aos grandes blocos e o pan-arabismo

Em 23 de junho de 1956, Gamal Abdel Nasser foi eleito presidente do Egito com 99,84% dos votos, aos 37 anos. Até 1970, data de sua morte, manteve-se no poder com uma política econômica que o identificou com a revolução nacional, cujas palavras de ordem eram a reforma agrária e o desenvolvimento industrial.

Uma primeira reforma foi iniciada em setembro de 1952. Até então, 280 proprietários dividiam aproximadamente 600 mil feddans (a unidade de medida agrária do Egito, equivalente a cerca de 4.200 m2), enquanto mais de 2 milhões de camponeses não tinham mais que 2 feddans. A partir de então, as propriedades passaram a ser limitadas em 200 feddans por pessoa e 300 por família. Essa reforma foi complementada, em 1961, por uma nova medida que restringiu as propriedades a 100 feddans.

Da mesma forma, Nasser, que publicou em 1953 um texto intitulado Filosofia da revolução, empreendeu, em janeiro de 1957, uma egipcianização de setores dos bancos, de seguros e de empresas estrangeiras de importação e exportação. Uma nova etapa foi concluída em 1960, quando foram nacionalizados os grupos bancários, principalmente o poderoso Msir, que detinha 75% dos depósitos. Essas nacionalizações deviam, segundo o rais, permitir a criação de 1 milhão de empregos.

No plano internacional, Nasser pregou, desde 1955, um “neutralismo positivo” diante dos blocos soviético e ocidental, reafirmado-o em abril daquele ano na conferência de Bandung, na Indonésia, onde, ao lado do chinês Zhou Enlai e do indiano Nehru, ele lançou as bases do movimento dos países não alinhados. Essa política lhe permitiu se tornar, rapidamente, o chefe carismático, e até ídolo, do mundo árabe. Conheceria seu apogeu com o caso do canal de Suez.

Em junho de 1956, Washington voltou atrás em sua promessa de financiar a barragem de Assuã. Como represália, Nasser nacionalizou a Companhia do Canal, uma decisão que provocou primeiro a ira de Londres e Paris, depois o desembarque de tropas estrangeiras em Suez, em novembro – os últimos soldados britânicos tinham deixado o país em junho –, com apoio de Israel. Diante das pressões americanas e soviéticas, a operação europeia fracassou e acabou transformando Nasser em herói do mundo árabe.

O Egito se aproximou então dos países do Leste, principalmente da União Soviética de Nikita Kruschev, que lhe enviou consultores e especialistas. As obras de Assuã começaram em 1960 e terminaram em 1964. A população rural parou de sofrer com as cheias do Nilo, enquanto a Unesco lançou uma operação de salvação do templo de Abu Simbel e dos monumentos da Núbia.

Ao mesmo tempo, Nasser brandia a bandeira da unidade árabe. Atuando como o novo Saladino, o sultão que tomou Jerusalém dos cruzados no século XII, Nasser fundou, em 1958, a República Árabe Unida (RAU), com o Egito e a Síria. Com isso, pretendia unir todas as nações da região. Mas, desanimados com o peso da burocracia egípcia, os sírios se desencantaram e se retiraram da efêmera RAU.

Depois de se tornar o interlocutor dos grandes, Nasser foi recebido na Assembleia Geral das Nações Unidas em outubro de 1960. Passou a ser o advogado da causa árabe diante das grandes potências. Mas ainda restava a questão das relações com o Estado de Israel.

Na metade dos anos 1960, a tensão subiu. Primeiramente foi Damasco que empurrou o mundo árabe para a guerra, em março de 1966. Depois foi o primeiro-ministro israelense Levi Eshkol que afirmou que seu país “poderia ser obrigado a dar à Síria uma lição ainda mais dura que aquela de 7 de abril”, fazendo referência a uma operação na zona desmilitarizada entre Israel e a Síria. A Guerra dos Seis Dias, um mês mais tarde, presenciou o desmantelamento total dos exércitos árabes.

Desde o primeiro dia, a aviação egípcia foi destruída em solo, e o Sinai foi ocupado pelos tanques de Tsahal, o exército israelense, até a margem ocidental do canal de Suez. Nesse meio tempo, a Cisjordânia caiu nas mãos de Israel, e uma parte de Jerusalém foi tomada. Finalmente, depois dos dois primeiros dias de combate, as tropas israelenses chegaram ao planalto de Golan. As consequências dessa derrota foram catastróficas para o Egito: a perda do petróleo do Sinai e o fechamento do canal de Suez pesariam bastante sobre a economia do país.

Apesar dessa derrota, e também do surgimento de um novo personagem como campeão da causa árabe, o coronel líbio Muammar Gaddafi, Nasser manteve um prestígio considerável no mundo árabe. Em 1970, para se reconciliar, o palestino Yasser Arafat e o rei Hussein da Jordânia, depois dos afrontamentos do Setembro Negro entre milícias da OLP e as forças da Jordânia, voltaram a se reportar ao rais

. Nasser conseguiu então conter o derramamento de sangue. E morreu no dia seguinte da assinatura do acordo entre os dois inimigos.

Richard Lebeau é historiador especialista em Oriente Médio e autor dos livros Atlas des hébreux (Atlas dos hebreus) e Une histoire des hebreux (Uma história dos hebreus), ambos sem tradução para o português.

Fonte

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Parte 1: A invenção de um continente
Continente Africano

 Quando o assunto é África, as primeiras imagens que nos vem a mente são: fome, negros, pobreza, animais, e selva. Bom, tudo isso existe, de fato, mas a África não se resume a isso e a nossa visão sobre ela nada mais é do que um desconhecimento do continente africano.
Grandes equívocos foram cometidos a partir do século XV, e se intensificaram na época do Imperialismo, sobre o que é o continente africano e as pessoas que vivem lá. A visão que temos hoje ainda é a visão imperial sobre aqueles povos. Esse olhar imperial não nos permite ver a África na sua complexidade e dinâmicas culturais.

O termo africano ao invés de denominar todo aquele que nasce na África, passou a ser sinônimo de etnia negra, e que convergem para uma imagem de inferioridade e primitivismo.
Um grande problema foi ver a África a partir da Europa. Ao aproximar o continente europeu do africano, o resultado obtido foi de que a África não tem povo, nação, Estado, e principalmente história. O Imperialismo acredita na evolução dos povos, sendo a Europa o grau máximo desta evolução.  Desta forma, foi estabelecido um sistema classificatório do homem:
1. Homem selvagem: quadrúpede, mudo, peludo.
2. Americano: cor de cobre, colérico, ereto. Cabelo negro, liso, espesso; narinas largas; semblante rude; barba rala; obstinado, alegre, livre. Pinta-se com finas linhas vermelhas. Guia-se por costumes.
3. Europeu: claro, sanguíneo, musculoso; cabelo louro, castanho, ondulado; olhos azuis; delicado, perspicaz, inventivo. Coberto por vestes justas. Governado por leis.
4. Asiático: escuro, melancólico, rígido; cabelos negros; olhos escuros, severo, orgulhoso, cobiçoso. Coberto por vestimentas soltas. Governado por opiniões.
5. Africano: negro, fleumático, relaxado. Cabelos negros, crespos; pele acetinada; nariz achatado, lábios túmidos; engenhoso, indolente, negligente. Unta-se com gordura. Governado pelo capricho.
Esse sistema classificatório serviu como justificativa para o tráfico negreiro de escravos até o genocídio na África do sul pelos bôeres.
Quando pensamos em África e na definição negativa que temos desta e de seus povos, pensamos em África negra. Existe duas Áfricas: a branca, ao norte do Saara, que se liga ao Velho Mundo pelo Mediterrâneo, e a negra ou subsaariana,que é a África propriamente dita, que está isolada, e de acordo com Hegel deve ser ignorada, pois lá os povos vivem na violência, barbárie e mais alto grau de primitivismo. A África branca só teria história, pois manteve contato constante com o Velho Mundo, já a negra por estar isolada ficou “parada” no tempo e no espaço, pois a civilização não chegou até ela.
De acordo com o pensamento divulgado pelo imperialismo, ambas as Áfricas estavam divididas pelo Saara, o que inviabilizou toda a comunicação entre elas. A história da África só começaria então, com o tráfico negreiro, pois o africano pode ser explorado já que esta marcado divinamente para isso. A sua cor é símbolo de uma maldição divina, e se encontram no estágio mais primitivo do desenvolvimento humano.
Somente a partir do momento que o tráfico de escravos começa é que se inicia a história da África.

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